Há laços que parecem ter uma disposição quase automática para o resgate. Enfrentar qualquer dificuldade por alguém não é visto como um sacrifício, mas sim como uma extensão natural do carinho. O desconforto não vem da entrega em si, mas da repetição. O mesmo padrão se repete, as mesmas quedas se desenham, e a presença é constantemente chamada, como se o aprendizado estivesse sempre reservado para depois. Não se trata de uma ausência de amor. Na verdade, é o amor que mantém essa prontidão. O desgaste surge quando a crise deixa de ser algo excepcional e se torna rotina. Cada novo episódio parece menos um imprevisto e mais uma estrada conhecida, quase familiar. O cuidado então passa a conviver com uma pergunta silenciosa, que raramente é dita em voz alta: até quando?
Há uma diferença sutil entre apoiar e sustentar um ciclo. Quando a lealdade se transforma em uma garantia de socorro incondicional, pode acabar protegendo não só a pessoa, mas também o comportamento que a mantém em risco. O resgate constante suaviza as consequências e, sem perceber, alimenta a continuidade da mesma história. É profundamente humano querer poupar quem amamos da dor. No entanto, quando alguém volta repetidamente para o próprio incêndio, o vínculo começa a assumir um papel que não deveria. O carinho deixa de ser um encontro e passa a ser um amortecedor. E esse amortecedor, por definição, absorve impactos que deveriam ser sentidos.
A tensão interna aumenta porque a lealdade entra em conflito com a lucidez. Continuar a atravessar o caos pode parecer nobre, mas também pode esconder a dificuldade de aceitar que não é possível salvar alguém de escolhas que se repetem por vontade própria. A linha entre presença e conivência vai se tornando cada vez mais fina. Em algum momento, a reflexão deixa de se concentrar no outro e se volta para dentro. Estar disponível para todo incêndio pode ser um ato de generosidade, mas também pode ser medo de perder o vínculo caso a ajuda seja retirada. Reconhecer isso não diminui o amor, apenas o torna mais consciente.
Lealdade não exige que estejamos presentes em cada descida ao abismo. Às vezes, o gesto mais maduro não é atravessar o fogo novamente, mas permitir que o calor ensine aquilo que nenhuma intervenção foi capaz de ensinar.
24 fevereiro 2026
Sobre lealdade e repetição
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