23 fevereiro 2026

Sobre desejo condicionado

    Quando um impulso é tratado como algo que tem que ser eliminado na hora, a mente acaba aprendendo uma associação simples, mas arriscada: desconforto pede alívio imediato. Não importa se o impulso é fome, tédio, excitação ou ansiedade. A lógica se torna automática. Surge uma tensão e a mente busca uma saída. E, quanto mais fazemos isso, mais forte essa trilha neural fica. Com o tempo, a tolerância ao desconforto diminui. Pequenas variações internas se tornam insuportáveis. A fome se transforma em irritação excessiva. O calor vira um drama. O silêncio se torna angustiante. Isso não acontece porque a experiência em si é impossível de lidar, mas sim porque o sistema nervoso foi treinado para não ficar por muito tempo em situações desconfortáveis.
    O desejo opera da mesma maneira. Em um ambiente digital que provoca estímulos constantes, as imagens e histórias são ajustadas para gerar o máximo de excitação no menor tempo possível. O impulso não aparece por acaso. Ele é planejado. E, uma vez que é ativado, pede uma resposta. A questão não é se o desejo vai surgir, mas sim como se lida com ele quando aparecer. Se toda excitação precisa ser atendida na hora, o cérebro aprende que a tensão não deve durar. Ele não consegue desenvolver maturidade emocional. Não aprende a observar, nomear ou conter. Aprende apenas a descarregar. E o que é alimentado repetidamente não só cresce, como ganha prioridade.
    As consequências disso não são só morais ou comportamentais; são estruturais. A capacidade de permanecer em estados internos desconfortáveis sem agir de forma compulsiva para silenciá-los é um dos pilares da maturidade psicológica. Sem essa habilidade, a pessoa acaba sendo refém de cada variação interna. Cada desejo se torna um comando. Cada impulso, uma urgência. Treinar essa contenção não significa reprimir ou negar o desejo. Quer dizer ampliar o espaço entre sentir e agir. Permitir que a energia do impulso exista, sem ser imediatamente transformada em comportamento. Nesse espaço, algo novo é construído: a autonomia.
    O que é alimentado se fortalece. Mas o que é apenas observado, sem ser obedecido, também se transforma. O desejo não precisa ser eliminado, mas sim atravessado. E a maneira de lidar com ele repetidamente não só molda hábitos, mas também a própria identidade.

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