26 janeiro 2026

Sobre tolerância e autodestruição

    Chega um momento em que o que muitos chamam de paciência deixa de ser uma virtude e se transforma em medo organizado. Não é sobre ser constante, leal ou ter maturidade emocional. É o medo silencioso de perder um lugar, de encarar o vazio que aparece quando se retira o acesso de quem nunca aprendeu a respeitar limites. Nesse caso, a permanência não é uma escolha consciente, mas uma paralisia diante da ideia de parecer frio, duro ou difícil. E esse medo tem um custo alto, mesmo que quase invisível. A perda de autoridade não ocorre de uma hora para outra. Ela vai se infiltrando aos poucos, cada vez que se tolera o desrespeito em nome da harmonia, quando a ironia é vista como uma brincadeira, ou quando um limite é explicado em vez de ser defendido. Cada concessão ensina ao outro até onde é possível ir. Não é apenas um erro isolado, mas um padrão que vai se reforçando. O que é aceito uma vez tende a se repetir, depois a escalar, até se tornar a norma.
    Existem relações em que o afeto está condicionado à disponibilidade total. O vínculo só existe enquanto alguém está acessível, compreensivo e disposto a carregar o peso emocional do outro sem questionar. Esse tipo de proximidade não é conexão, é uma drenagem. A troca desaparece e dá lugar a um uso contínuo, onde um lado se adapta às custas do outro. O resultado geralmente é cansaço, a perda de foco e uma sensação constante de estar aquém, mesmo quando se faz tudo.
    Outro sinal comum aparece quando o apoio só existe enquanto não há crescimento. A mudança incomoda, o avanço é ameaçador e o entusiasmo inicial se transforma em comentários sutis que pedem contenção, moderação e retorno ao que era familiar. Não se trata de hostilidade aberta, mas de uma tentativa silenciosa de manter o status quo. Permanecer nesses vínculos exige uma redução do próprio ritmo, minimização de conquistas e negociação das ambições para garantir a aceitação. O aspecto mais destrutivo, no entanto, costuma ser a instabilidade. Momentos de validação seguidos de afastamento, reconhecimento em particular e apagamento em público, uma presença intensa que desaparece sem explicação. Essa oscilação não é apenas confusão emocional. É um mecanismo que mantém a outra pessoa em constante tensão, sempre tentando resgatar a versão acolhedora que surgiu antes. A atenção deixa de estar no próprio caminho, focando na constante tentativa de restaurar o equilíbrio perdido.
    Quando a tolerância substitui a distância, a autonomia começa a se desfazer. A vida se organiza em função das reações dos outros e não mais com base em critérios próprios. Retirar o acesso, nesses casos, não é uma punição nem um ato cruel. É um gesto de preservação. O silêncio deixa de ser omissão e passa a funcionar como uma forma de encerramento. A distância não é sinal de fraqueza, mas um retorno a um território que havia sido cedido sem perceber.
    Depois que esse movimento acontece, algo muda. O ambiente se torna mais calmo, menos povoado, talvez até mais frio à primeira vista. Mas é nesse espaço que a clareza volta. Fica evidente que o que se chamava de paciência era apenas o adiamento de uma decisão necessária. E que nenhuma relação se sustenta quando exige a erosão constante da dignidade para continuar existindo.

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