26 janeiro 2026

Sobre a ilusão do destaque

    A pergunta pode parecer simples quando surge na infância, quase como um jogo de faz de conta, mas tem um peso simbólico que atravessa gerações e se instala de forma sutil na vida adulta. O anseio por ser famoso raramente desaparece completamente. Ele muda de forma, se disfarçando de ambição, de carreira, de um sonho legítimo. Muitos não falam isso em voz alta, mas continuam fascinados pela ideia de serem vistos e admirados por uma multidão de estranhos. Para uma geração inteira, a fama não é só uma possibilidade, mas um objetivo a ser alcançado. Para os jovens de hoje, cercados por telas e métricas digitais, ser youtuber, influencer ou celebridade não é mais uma fantasia distante, mas uma escolha profissional. O que antes era algo raro agora se apresenta como um caminho desejado, quase natural. E isso não se aplica apenas aos adolescentes. A ideia de que sucesso vem acompanhado de riqueza, prestígio ou notoriedade se espalhou de tal forma que molda expectativas e redefine o que significa vencer na vida.
    No entanto, existe um grande equívoco nessa ligação. A fama é frequentemente confundida com proteção emocional, como se a visibilidade garantisse imunidade à rejeição e ao abandono. Mas ser reconhecido não substitui a necessidade de se conquistar alguém a cada vez. O olhar coletivo não cria vínculos, não proporciona intimidade, não garante acolhimento, apenas observa.
    A busca pela fama geralmente surge de uma necessidade legítima: o desejo de ser valorizado, respeitado, tratado com dignidade. O problema aparece quando se acredita que esse reconhecimento pode ser adquirido através da exposição. A fama funciona como uma recompensa externa, e tudo o que depende da opinião dos outros para existir carrega uma instabilidade inerente. Estudos indicam que recompensas externas trazem menos satisfação do que aquelas que vêm da experiência interna. A validação que vem de fora nunca se estabelece de forma duradoura; ela precisa ser constantemente renovada.
    O mundo também não costuma ser gentil com quem permanece em evidência por muito tempo. Há um provérbio que atravessa culturas e resume essa ideia de maneira cruel: o prego que se destaca é o que leva a martelada. Ser muito visto se torna um alvo. O sucesso dos outros provoca desconforto, gera comparações e ativa ressentimentos. A felicidade alheia, ao ser amplamente divulgada, se transforma em um lembrete das frustrações de muitos. A pessoa famosa acaba sendo um símbolo de uma injustiça percebida, um espelho das próprias derrotas. E, nesse cenário, a admiração rapidamente se transforma em hostilidade.
    Além disso, a fama traz características de dependência. Quanto mais se é consumido, mais se anseia. A lógica das redes sociais potencializou esse fenômeno, transformando likes e seguidores em pequenas doses de aprovação que ativam os mesmos circuitos de recompensa do cérebro que outras substâncias viciantes. No entanto, ser notado não é o mesmo que ser amado. Ser visto não se equipara a ser compreendido. O verdadeiro apreço surge apenas nas relações autênticas, onde há troca, cuidado e histórias compartilhadas. Talvez tantas pessoas ainda busquem a fama porque a vida comum parece insuficiente. Como se a rotina, com seus gestos simples e conquistas discretas, tivesse perdido o valor. A promessa da fama se apresenta como um atalho para uma sensação de importância que deveria ser construída de dentro para fora. Apoiar a autoestima no julgamento de estranhos é uma aposta arriscada. O olhar do outro é volátil, impessoal e, muitas vezes, cruel.
    A fama não oferece abrigo. Não garante pertencimento. Não protege do vazio. Ela apenas amplifica tudo o que já existe. E quando se tenta substituir uma falta interna por aplausos externos, o resultado costuma ser uma sede que nunca se apaga. O desejo de se destacar, se não for explorado com honestidade, pode custar muito caro. O prego que se ergue acima da madeira acaba chamando o martelo. E a martelada, quase sempre, chega.

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