14 janeiro 2026

Sobre o retorno após a cura

    Há uma expectativa silenciosa de que, após um período de afastamento e reflexão, alguém com padrão evitativo possa retornar mudado, disponível e emocionalmente saudável. Em alguns casos, isso de fato acontece. Mas é preciso encarar essa possibilidade com clareza, não apenas com esperança. Quando o padrão evitativo é leve, mais como uma defesa momentânea do que uma estrutura emocional fixada, a mudança pode ocorrer mais rapidamente. Algumas pessoas conseguem reavaliar seus mecanismos de afastamento, trabalhar suas dificuldades em intimidade e refazer suas maneiras de se conectar em um espaço de tempo relativamente curto, desde que haja consciência, compromisso com o processo e uma verdadeira disposição para encarar desconfortos internos.
    Por outro lado, em quadros moderados ou severos, que incluem rupturas intensas, fuga emocional e a incapacidade de manter vínculos, a transformação não se dá em períodos curtos. Não são semanas. Não são meses. Muitas vezes, nem mesmo poucos anos. É um trabalho profundo de revisão de padrões que foram construídos ao longo de toda uma vida.
    Quando alguém sai de um relacionamento como uma força destrutiva e retorna pouco tempo depois afirmando estar curado, o que é mais provável é a repetição do mesmo padrão, e não uma verdadeira mudança. A ferida pode ter sido tocada, mas não realmente integrada. O desconforto pode ter sido sentido, mas não processado. O medo de se aproximar ainda está presente, só que de forma mais silenciosa. Retornos rápidos geralmente vêm da solidão, da carência ou da nostalgia, e não de uma maturidade emocional. A diferença entre arrependimento e evolução está na consistência do comportamento, e não no que se diz. A mudança real se manifesta na capacidade de manter presença, responsabilidade afetiva e estabilidade emocional, não em promessas vazias.
    Quando surge a necessidade de entender esse tipo de vínculo, geralmente não se trata de alguém levemente evitativo. É mais sobre quem vinha operando a partir de um padrão profundo de afastamento e defesa. E nesses casos, o tempo necessário para uma transformação verdadeira costuma ser bem maior do que qualquer pessoa emocionalmente disponível estaria disposta a esperar. O retorno pode acontecer. Mas esperar por ele quase sempre tem um alto custo. E, na maioria das vezes, esse custo é a própria reconstrução emocional de quem ficou.

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