Depois de se relacionar com alguém que tem dificuldades em se abrir emocionalmente, a forma como você vê a conexão e o desejo pode ficar meio distorcida. O corpo acaba associando intensidade à instabilidade e tranquilidade à falta de interesse. Surge, então, essa sensação de que algo está faltando, quando, na verdade, o que desapareceu foi a constante sensação de alerta. O sistema emocional, acostumado com essa montanha-russa, estranha a previsibilidade e vê a segurança como tédio.
A tal da faísca saudável aparece de maneira silenciosa e constante. Ela se forma na presença que não exige vigilância, na curiosidade que surge sem esforço, na leveza que permite brincar sem medo de ser rejeitado, e na admiração que cresce com o tempo. Trata-se de uma energia que não chama a urgência, mas que traz um sentimento de pertencimento. Não cria tensão, cria espaço. Não gera ansiedade, gera proximidade. Por outro lado, a faísca surgida da ferida provém da instabilidade. Ela se alimenta da dúvida, da espera, da necessidade de provar seu valor. É marcada por essa sensação de estar sempre em risco, pela antecipação constante e pela esperança que surge só quando o outro se afasta. Quanto mais tempo ausente, maior o desejo. Quanto mais imprevisível, maior o envolvimento. Isso não é conexão, é apenas ativação.
Quando esse padrão se quebra e aparece uma relação emocionalmente disponível, o corpo pode sentir falta do caos. A falta de tensão é interpretada como falta de emoção. O silêncio que antes significava abandono agora é visto como estabilidade, mas a memória emocional ainda não aprendeu a ver isso como segurança. O que parece a ausência de uma faísca, muitas vezes, é só a falta de ansiedade. Existe também a verdadeira falta de compatibilidade, que não deve ser confundida com a calma saudável. Quando não há troca, curiosidade, desejo mútuo ou intimidade construída, o vínculo se torna vazio. Não por falta de drama, mas pela falta de um encontro real. A diferença é sentida no corpo. A calma saudável traz presença e a ausência de conexão gera distância.
Um sinal claro de ativação emocional disfarçada de atração é quando o interesse aumenta justamente quando o outro se afasta. Quando a incerteza reacende o desejo. Quando um retorno provoca alívio, não alegria. Nesse ciclo, não se busca o outro, mas a sensação de ser escolhido mais uma vez. Aprender a diferenciar essas duas faíscas é uma parte essencial do amadurecimento emocional. Nem toda intensidade é amor, nem toda calma é desinteresse. Às vezes, o que parece a falta de paixão é, na verdade, a presença de algo que nunca existiu antes: segurança.
14 janeiro 2026
Sobre faíscas
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