20 dezembro 2025

Sobre o preço do desencanto

    Algumas histórias chegam ao fim não apenas pelo desgaste, mas pela expectativa silenciosa de que a vida deveria oferecer algo mais leve, mais emocionante, quase cinematográfico. Certas relações se rompem não por ausência do essencial, mas pela busca obstinada daquele fragmento que parece faltar. O que sustenta o cotidiano perde força diante do brilho fugaz de experiências que prometem novidade, mesmo quando não carregam profundidade. Esse fenômeno se repete quando a estabilidade se torna invisível. O esforço que mantém uma casa em pé, o trabalho contínuo que sustenta uma família, a previsibilidade que traz segurança... tudo isso pode ser visto como falta de emoção. A rotina, que deveria ser percebida como uma base, acaba sendo vista como uma prisão. E, quando a comparação surge, especialmente frente a vidas que parecem mais livres, mais espontâneas e cheias de estímulos, a sensação de falta começa a crescer desproporcionalmente ao que realmente está ausente.
    O erro acontece quando a atenção se fixa no pequeno vazio, esquecendo a grandeza do que já existe. A busca pelo que falta transforma-se numa lente que distorce o valor do que está presente. E é nesse ponto que muitas decisões acabam se tornando rupturas. Não por causa de uma dor profunda, mas pelo tédio. Não por desrespeito, mas por expectativas mal ajustadas. A fantasia do que poderia ser começa a pesar mais do que a realidade construída ao longo dos anos.
    Ao trocar a estabilidade por promessas de leveza, percebe-se que o encanto do novo raramente suporta o peso das responsabilidades que permanecem. O que parecia libertador logo revela seu custo. Chega um momento em que a percepção muda: aquilo que antes chamávamos de monotonia se transforma em cuidado. E o que parecia diversão passa a ser visto como vulnerabilidade emocional. Esse ciclo expõe uma contradição humana bem conhecida. Almeja-se o brilho e se despreza a base, até que a ausência dessa base mostre que o brilho, por si só, não sustenta nada. A teoria dos noventa e dez traduz esse movimento: a atenção exagerada ao detalhe que falta ofusca o valor do todo. Quando a busca pelo que falta se torna maior do que a capacidade de enxergar o que existe, a insatisfação se transforma em decisão. Porém, decisões tomadas nesse estado raramente consideram as consequências. A fantasia sugere que o que falta está disponível em abundância, quando, na verdade, é justamente o que mais escapa. E o que se perde no processo é, precisamente, o que sustentava a vida real.
    O arrependimento não surge da solidão, mas da compreensão tardia de que a estabilidade também era afeto. Que o silêncio da rotina era, em certo sentido, segurança. Que a ausência de euforia não significava falta de amor. E que a busca por um complemento pode destruir o que é essencial quando não se tem consciência do que realmente importa. O que sobra é uma percepção desconfortável. É possível perder algo valioso não porque esse algo falhou, mas porque a própria visão se desviou. E, quando a realidade se impõe, fica claro que certas escolhas não podem ser desfeitas. Algumas ausências só se revelam quando já é tarde demais para reconstruir o que foi deixado para trás.

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