19 dezembro 2025

Sobre admitir o peso de expectativas

    Verdades podem chegar como cortes sutis e quase imperceptíveis, mas conseguem expor tudo aquilo que tentamos manter escondido por muito tempo. Explicar-se sem parar é um desses sinais. Quando o interesse é genuíno, ouvir flui naturalmente. Quando não é, a necessidade de se justificar só traz cansaço. O que realmente leva a explicações incessantes não é a complexidade da situação, mas a falta de disposição do outro em entender. A recusa em ver o óbvio diz muito mais sobre quem escuta do que sobre a história que tentamos contar. Algumas pessoas nunca aceitam seus erros porque estão presas em discursos que amenizam ou até normalizam comportamentos prejudiciais. Assim, a falta de responsabilização se torna a norma, em vez de uma exceção. Nesse contexto, qualquer tentativa de diálogo esbarra em um muro de defesa. Quem ignora o que sente tem dificuldade em acolher os sentimentos alheios. Isso não vem de má intenção, mas sim de uma limitação emocional: a gente só pode dar aquilo que já possui.
    A noção de bondade também se distorce nessas dinâmicas. O silêncio é visto como virtude, e a concordância ininterrupta se torna sinônimo de caráter. Muitos só reconhecem valor onde há submissão. Eles confundem gentileza com obediência, e maturidade com apagamento. Sem perceber, exigem que o outro se curve para que seu próprio universo interno permaneça intocado, protegido de qualquer incômodo.
    E ainda há as dores do passado, que teimam em continuar vivas quando não são enfrentadas. Fugir dos próprios lutos transforma qualquer relação atual num palco de repetições emocionais. A dor que não ganha nome se infiltra nos gestos, distorce percepções e acaba fazendo com que o outro pague por algo que não é culpa dele. Um passado não resolvido cria ecos, e esses ecos moldam comportamentos que podem parecer desproporcionais, mas que, na verdade, só revelam feridas ainda abertas.
    Encarar essas verdades requer coragem. É preciso deixar de lado a ilusão de que basta se explicar melhor, amar mais ou ter mais paciência. Em algum ponto, fica claro que a mudança só acontece com reciprocidade emocional, e continuar tentando preencher vazios que não deveriam ser nossos só prolonga o sofrimento. Reconhecer esse limite não significa abandonar o outro, mas sim preservar a si mesmo. É o começo de um relacionamento mais verdadeiro com a própria história e com o que ainda precisa ser curado.

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