14 novembro 2025

Sobre o desgaste de ter que duvidar do que é real

    Alguns vínculos desgastam nossa razão de uma forma quase invisível. Não é a falta de carinho que torna essas relações cansativas, mas sim o costume de distorcer os fatos até que a verdade se torne irreconhecível. Conviver com pessoas que distorcem situações e não assumem responsabilidades gera um cansaço profundo, que passa despercebido até que às vezes pode ser tarde demais. A mente tenta lidar com esse caos, buscando lógica onde, na verdade, só há controle disfarçado de conversa. Com o tempo, o corpo começa a carregar o peso do que a mente não consegue nomear, e a dúvida começa a minar aquilo que antes parecia sólido.
    Quando cada ação é tratada como uma ofensa, o erro deixa de ter um responsável. As justificativas aparecem como se fossem equilibradas, e o outro sempre parece agir em reação, como se não tivesse escolhas. A culpa muda de rumo com a habilidade de quem manipula a conversa. O resultado é um jogo psicológico que embaralha a percepção, onde o desconforto se torna exagero e a angústia se transforma em sensibilidade excessiva. Aos poucos, a clareza se torna algo que precisa ser defendido. A forma como nos vemos se fragiliza até que nossa realidade dependa da validação dos outros. O que antes era uma convicção pessoal agora precisa de confirmação, e o medo de ser considerado injusto impede o reconhecimento do abuso. Esse é o momento em que o controle se estabelece de verdade: quando manter-se em silêncio parece mais seguro do que confrontar. Essa quietude, nesse contexto, não vem da serenidade, mas de um impulso de autoproteção.
    Quebrar esse ciclo requer coragem para se afastar, mesmo que a culpa tente segurar o vínculo. Manter o próprio equilíbrio não é egoísmo, mas uma questão de sobrevivência emocional. A clareza se restabelece exatamente quando decidimos não negociar mais o óbvio. E só então percebemos que o amor não deve exigir a renúncia da própria sanidade.
    Há sabedoria em não reagir a quem vive manipulando a situação. A distância traz de volta um silêncio autêntico, que vem da paz e não da submissão. No final, a verdadeira libertação acontece quando decidimos acreditar novamente em nossa própria percepção. Porque quem tenta se manter em meio à distorção precisa, antes de tudo, aprender a confiar no próprio olhar.

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