16 novembro 2025

Sobre o desconforto diante do afeto

    O jeito como percebemos gestos afetivos mudou de tal forma que até mesmo sinais sutis de interesse passaram a ser encarados como ameaças. Coisas simples, como um presente, uma visita rápida ou a atenção aos pequenos detalhes, que antes traziam encanto, agora causam incômodo imediato. O mesmo gesto que poderia ser visto como carinho em um ambiente de abertura emocional, agora, em meio a uma constante defesa, acaba se tornando um gatilho de rejeição. Essa mudança mostra um tempo em que a vulnerabilidade deixou de ser uma ponte e virou uma barreira, onde qualquer tentativa de aproximação que demande receptividade é olhada com desconfiança, em vez de ser encarada com ternura.
    Esse sentimento repentino de repulsa não vem do gesto em si, mas do clima emocional que molda como interpretamos as coisas. O fato de estar hipervigilante sobre os sentimentos virou um padrão, e essa leitura defensiva tomou o lugar da espontaneidade. Há uma tendência de transformar a falta de interesse natural em algo moral, como se admitir que não se sente atração fosse mais vergonhoso do que debochar da iniciativa dos outros. Isso cria um ambiente em que a responsabilidade emocional é perdida, e a ironia substitui a sinceridade. A comunicação, que poderia encerrar situações com respeito, dá espaço a julgamentos silenciosos que machucam mais do que qualquer resposta direta. Essa dinâmica compromete as relações. O incômodo legítimo poderia ser expresso de forma clara, mas muitas vezes se transforma em desprezo disfarçado de superioridade. A transparência, que poderia preservar a integridade emocional de todos, é trocada por rotular atitudes comuns como exageros. Isso gera um distanciamento crescente entre as pessoas, como se qualquer demonstração de interesse fosse sinal de inadequação. O gesto que poderia criar conexão passa a ser visto como algo indesejado, não pelo que é, mas pela lente defensiva e exaustiva com a qual é analisado.
    O maior paradoxo é que essa postura não traz proteção, só isolamento. A repulsa abrupta é uma justificativa conveniente para evitar o que não atrai, mas cria a ilusão de que o desconforto pertence sempre ao outro. Enquanto isso, a percepção de ameaça em relação ao afeto fala mais sobre o medo de intimidade do que sobre o comportamento de quem se aproxima. Essa recusa em reconhecer os próprios limites emocionais transforma a convivência em um terreno de mal-entendidos, onde a autopreservação supera a empatia e esvazia as chances de encontros verdadeiros.
    A fragilidade de hoje não está no gesto que causa repulsa, mas na dificuldade de lidar com o impacto que o outro traz. A vulnerabilidade que antes aproximava agora é evitada, e o medo de parecer ridículo impede que vínculos autênticos se formem. O que chamamos de repulsa é, muitas vezes, apenas uma reação ao desconforto de ser visto de maneira mais próxima, sem filtros e sem controle. E enquanto esse medo guiar nossas percepções, o afeto continuará sendo interpretado como uma ameaça, e não como um convite. A reflexão que sobra é simples e profunda: talvez o que incomode não seja o gesto do outro, mas a dificuldade de acolher alguma forma de entrega em um mundo que se esqueceu de como se permitir sentir.

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