17 fevereiro 2026

Sobre não ser escolhido

    Há uma certa ironia em ser visto como alguém raro, sensível, correto e estável, mas ao mesmo tempo não ser a escolha final de ninguém. Receber elogios que parecem mais como um prêmio de consolação. Ouvir que seria perfeito para outra pessoa, mas não para quem realmente expressou isso. Há uma dor única nesse espaço entre ser admirado e se sentir excluído. Ser considerado bom costuma fazer com que as pessoas acreditem que isso garanta amor e afeto. Como se ter integridade, cuidado e presença fosse suficiente para conquistar um lugar. Mas o desejo não se reduz apenas à bondade. Ele depende de uma tensão, de uma identificação profunda, de uma compatibilidade invisível que não se troca por mérito.
    Quando alguém diz que gostaria de encontrar alguém parecido, isso implica uma divisão delicada. A pessoa reconhece seu valor, mas não sente aquele impulso. A validação chega sem a escolha. E isso revela uma verdade incômoda: ser adequado não é sinônimo de ser desejado. Muitas pessoas acabam levando essa situação como uma falha pessoal. Elas tentam mudar sua postura, sua intensidade, sua disponibilidade. Tornam-se ainda mais compreensivas e corretas. Mas, na verdade, o que está em jogo raramente é a insuficiência. É uma questão de dinâmica, de química emocional, de histórias internas que não se alinham só porque alguém merece.
    E há também um aspecto cultural nessa equação. A ideia de que o “bom” deveria prevalecer cria a expectativa de que existe justiça nos relacionamentos. Mas as conexões não seguem uma lógica moral. Elas se formam por atração, por timing, por feridas que se reconhecem ou que se evitam. Às vezes, o que é seguro demais não desperta o que alguém realmente busca, mesmo que inconscientemente.
    Ser elogiado e ainda assim não ser escolhido desafia o desejo por validação externa. Isso força a separar a identidade da aprovação. Faz perceber que valor não garante reciprocidade. E talvez a verdadeira maturidade esteja em não transformar essa rejeição elegante em uma prova de inadequação. Porque ser uma pessoa íntegra não é uma estratégia para ser escolhida. É uma escolha interna. Quando essa diferença fica clara, a frustração começa a perder a intensidade. O reconhecimento dos outros deixa de ser uma promessa implícita. E o foco volta para o que realmente importa: encontrar alguém que não apenas admire, mas que escolha ficar.

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