08 fevereiro 2026

Sobre fugir de sentir

    A retirada muitas vezes se disfarça de inteligência emocional. Conseguir não reagir, manter a calma e sair de cena antes que as coisas esquentem pode dar a impressão de maturidade. Por um tempo, a ausência parece um tipo de poder silencioso, uma maneira de proteger a própria integridade de qualquer risco de exposição. Mas o que quase sempre passa despercebido nesse momento é que essa fuga imediata acaba custando cada vez mais em termos de isolamento. O distanciamento ganha rótulos mais bonitos para continuar existindo sem culpa. Fala-se de necessidade de espaço, autocuidado, preservação. Palavras que soam responsáveis, mas que escondem um movimento mais profundo, o esforço constante de evitar encarar aquela parte que falha, que tem medo, que não consegue suportar o desconforto de manter um diálogo quando o vínculo pede sinceridade. A distância se transforma em uma estratégia de sobrevivência, mas também se torna um bloqueio contra qualquer chance de intimidade real.
    Há também a crença sedutora de que tranquilidade é sinônimo de evolução. A postura contida, o tom equilibrado, a recusa em entrar em conflito parecem provas de superioridade emocional. No entanto, quando a calma serve apenas para impedir a implicação, algo essencial deixa de acontecer. A relação permanece limpa de confrontos, mas igualmente vazia de profundidade. Nada quebra, porém nada se enraíza.
    O que foi evitado não se dissolve. Ele apenas espera por condições melhores para voltar com mais força. Questões pequenas que foram ignoradas se reorganizam em padrões repetitivos, reaparecendo em novas histórias que, mesmo com personagens diferentes, trazem a mesma sensação de déjà vu. A vida afetiva parece um golpe de azar, quando na verdade é a repetição de um método que sempre priorizou a fuga em vez da presença. Na tentativa de proteger o coração, outras habilidades também começam a esmorecer. Confiar parece arriscado, depender se transforma em ameaça, abrir-se se torna um risco desnecessário. Com o tempo, percebe-se que o entorpecimento não é seletivo. Ao tentar diminuir a dor, também se diminui a vitalidade do encontro, a intensidade da troca, a chance de vivenciar algo que vá além da superfície.
    A imagem de autonomia ajuda a manter a narrativa em ordem. A independência soa admirável e o controle parece uma virtude. Mas, por trás dessa firmeza, existe um medo persistente de ser visto de perto, de não corresponder, de precisar negociar limites internos. A autoproteção vai se sofisticando a ponto de quase se confundir com a identidade, e o contato humano acontece sempre com um pé fora da porta. Quando a repetição se torna insustentável, a lucidez começa a surgir de uma forma áspera. Fica claro que desaparecer nunca resolveu o sofrimento, apenas adiou e multiplicou suas formas. Permanecer, com toda a vulnerabilidade que isso implica, deixa de ser um perigo absoluto e passa a ser a única chance de quebrar o ciclo. Não se trata de garantir um final feliz, mas da possibilidade concreta de viver relações que consigam sobreviver ao impacto da realidade.

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