Uma fantasia comum nas relações afetivas atuais é achar que, com a combinação certa de palavras, explicações ou apelos emocionais, é possível provocar no outro um despertar repentino de consciência, responsabilidade e disponibilidade emocional. Essa expectativa ignora uma verdade básica sobre as relações humanas: ninguém muda só por convencimento externo. Para uma mudança genuína, é preciso haver uma disposição interna, algo que não pode ser negociado, implorado ou forçado pela insistência de quem espera.
Quando estamos lidando com alguém que tem um padrão evitativo, especialmente se essa pessoa tende a se afastar emocionalmente e a negar sua própria vulnerabilidade, a dificuldade não está na falta de compreensão intelectual. O problema é o medo profundo de se conectar, além do contato com sentimentos de inadequação e vergonha. O autoconhecimento pode ser doloroso, pois revela feridas antigas que foram evitadas a vida inteira. Não existem palavras que tornem esse processo mais confortável ou rápido. Tentar fazer isso pode acabar deslocando o custo emocional para quem insiste, levando essa pessoa a se explicar demais, a reduzir suas próprias necessidades, a tolerar ausências e, no fim, a se abandonar na esperança de ser escolhido.
Nessa situação, a clareza vem não do que se diz, mas dos limites que se estabelecem. Limites não são ferramentas para controlar o outro, mas definições internas do que se aceita, do que se recusa e do que não se está mais disposto a sustentar. Eles demarcam nosso espaço emocional e transmitem, de maneira silenciosa, o nosso valor pessoal. Quando comunicamos esses limites, não prometemos que o outro mudará, mas oferecemos, na verdade, uma oportunidade de encontrar um ponto em comum. A decisão de atravessar essa ponte cabe ao outro.
Sustentar limites também envolve aceitar que isso pode levar ao afastamento. Essa possibilidade não é uma falha na estratégia, mas sim a confirmação de que a relação não tinha a reciprocidade necessária para ser saudável. Escolher a si mesmo, nessas situações, não é um ato impulsivo de ruptura, mas sim uma ação coerente. Relações que precisam de palavras mágicas para existir já indicam, desde o início, a falta de uma verdadeira intenção de permanência. E quando isso se torna evidente, o limite deixa de ser uma defesa e se transforma em uma forma de libertação.
08 janeiro 2026
Sobre limites
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentaí