Há uma satisfação que aparece somente quando a porta se fecha e não há ninguém exigindo performance. Não é só um alívio por sair de algo chato, mas a percepção tranquila de estar exatamente onde se quer estar. O tempo deixa de precisar ser validado de maneira prática. Ficar em silêncio, sem uma razão aparente, acaba se tornando uma experiência tão rica que pode ocupar um dia todo. Para quem assiste de fora, essa cena pode parecer carente. A falta de barulho é vista como um vazio. A mente que não busca uma plateia pode parecer abandonada. Mas, na verdade, por dentro, não falta nada. Esse espaço já está cheio de associações, memórias, hipóteses e pequenas histórias que se entrelaçam sem precisar de reconhecimento do exterior.
Algumas pessoas conseguem passar o fim de semana todo nesse estado e saem se sentindo renovadas. Não sentem falta de contato, nem têm a urgência de compensar o tempo que passaram sozinhas. A indagação sobre solidão soa quase como uma língua estrangeira. Estar só e sentir-se só não são mundos que se cruzam. A cultura dominante geralmente não entende essa diferença. Ela vê a autossuficiência como um problema. Presume retraimento, tristeza, falha de adaptação. A agitação coletiva em relação ao silêncio mostra o quanto se perdeu a intimidade com a própria companhia. Onde não há distrações, muitos encontram apenas eco onde alguns veem profundidade.
As mentes que estão acostumadas a esse mergulho funcionam de maneira diferente. O pensamento continua trabalhando mesmo quando o corpo descansa. Conexões inesperadas surgem, memórias se reorganizam, e perguntas amadurecem até ganhar forma. Não é uma fuga do mundo, mas uma conversa prolongada com suas camadas que só se revelam quando o barulho diminui. Essa preferência costuma ser antiga. Crianças que conseguem passar horas em universos invisíveis muitas vezes são vistas como retraídas, quando, na verdade, estão apenas fascinadas pelo que se passa dentro delas. Na vida adulta, essa disposição não desaparece; ela apenas se torna mais complexa, menos imaginativa e mais ligada à criação e compreensão. Ainda assim, muitos aprendem a disfarçar esse prazer. Criam agendas, exageram encontros e suavizam o que realmente fazem. Admitir que só pensar foi suficiente pode gerar desconforto em quem precisa de movimento constante para sentir que vale a pena.
Os equívocos que persistem são dolorosos. Escolher a solidão é lido como rejeição. A serenidade é confundida com negação. Parece que a satisfação interna não pode sustentar uma vida legítima. Poucos percebem que ali existe um alimento invisível, mas real. Quando o contato ocorre, ele é seletivo. Prefere a profundidade à frequência. Valoriza presenças que não invadem o silêncio, que permitem pausas e não pedem um espetáculo. As relações se constroem mais pelo reconhecimento mútuo das interioridades do que pela quantidade de estímulos compartilhados. É nesse recolhimento que o trabalho crucial muitas vezes acontece. Ideias precisam de continuidade, emoções precisam de digestão, intuições exigem tempo. Nada disso cresce no meio de interrupções constantes. A quietude deixa de ser um luxo e se torna uma necessidade.
Assim, temos uma inversão difícil de aceitar. Pode ser que não seja a solidão que empobrece, mas a dificuldade de habitar esse espaço. O medo de ficar consigo mesmo pode revelar um território ainda não cultivado. Para alguns, esse território já floresceu, e retornar a ele é mais um reencontro do que um isolamento. Essa conclusão é desconfortável porque tira a superioridade de quem sempre está cercado. A vida interior pode ser ampla, suficiente e fértil. Em vez de ausência, há imersão. Em vez de privação, há escolha. Permanecer ali não significa perder o mundo, mas acessá-lo por uma outra porta.
16 fevereiro 2026
Sobre plenitude na solitude
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