19 janeiro 2026

Sobre não implorar presença

    Há um tipo de cuidado que não se revela como um conforto imediato, prazer ou alívio. Em vez disso, ele surge como um movimento interno de separação. É o momento em que alguém para de buscar a atenção de quem nunca esteve realmente disponível emocionalmente. Não é por rigidez ou orgulho, mas por clareza. Essa escolha exige que se atravesse um território desconfortável. O medo do silêncio, o medo da espera, o medo de que o tempo até encontrar alguém que realmente possa sustentar uma conexão seja mais longo do que a paciência consegue aguentar. Há um luto silencioso nesse ato, pois não se perde apenas a pessoa, mas também a ideia de que ela poderia um dia mudar.
    Terminar uma relação que não atende nem às necessidades mais básicas é um gesto de maturidade emocional. É entender que sentir não é suficiente quando o outro não está presente. Que desejo não constrói uma presença real e que apego não gera responsabilidade afetiva. Algumas conexões trazem ansiedade, criam tensão e mantêm o corpo em alerta. Outras oferecem previsibilidade, constância e uma segurança que não precisa ser renegociada a cada encontro. Com essas, não há dúvida sobre o seu espaço. Não existe um silêncio que machuca. Não há espera que consome.
    O cuidado verdadeiro começa quando se decide ficar apenas onde existe integridade: onde há presença. Onde não é necessário competir por atenção ou justificar a própria importância. Nesse afastamento, mesmo que doloroso, surge um novo espaço. Um espaço onde o corpo pode relaxar. Onde a mente desacelera. Onde o afeto deixa de ser um pedido e se transforma em um encontro.

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