Há uma repetição quase automática de certos discursos afetivos que, à primeira vista, parecem modestos e racionais. Querer apenas alguém que seja leal e gentil soa como uma meta elevada, como se fosse um critério fácil de alcançar. Mas, se você parar para pensar, isso geralmente não reflete o que realmente direciona essas escolhas. Quando se olha de perto, essa ideia parece mais uma narrativa que a sociedade aceita do que uma representação verdadeira do que se realmente deseja. Lealdade e gentileza, isoladamente, não são qualidades difíceis de encontrar. Estão por aí, em pessoas comuns, discretas e previsíveis. O problema aparece aí: quando essas características vêm sem os atributos que dão status, emoção ou validação externa, elas acabam sendo vistas como insuficientes. O que se busca não é só segurança emocional, mas uma combinação ideal que junte estabilidade com admiração, conforto com destaque, carinho com algo excepcional.
Essa diferença revela algo importante. O desejo não é guiado apenas por valores nas relações, mas por uma fantasia de maximização. Não basta que a pessoa seja confiável, também se espera que ela represente alguma forma de distinção. Não é suficiente ser afetuoso, é preciso manter uma posição simbólica que justifique a escolha aos olhos da sociedade. O afeto, nesse cenário, deixa de ser um encontro e se torna uma confirmação de status pessoal.
Quando essa complexidade não é reconhecida, cria-se um barulho. Pessoas que oferecem exatamente o que foi pedido são descartadas ou isoladas em "compartimentos sociais", enquanto a frustração é projetada como se o problema fosse a falta de opções. A narrativa do que é considerado o mínimo protege a autoimagem, mas impede que se assuma a responsabilidade por critérios pessoais de seleção. Admitir que o desejo é mais exigente do que se admite implicaria encarar incertezas internas que muitos não estão prontos para enfrentar. Não tem nada de errado em querer muito. O conflito surge quando esse desejo é disfarçado de simplicidade moral. As relações se tornam inviáveis não pela falta de pessoas adequadas, mas pela recusa em entender que o que se busca não é só caráter, mas sim um ideal super específico, que é difícil de manter e ainda mais complicado de admitir em voz alta.
27 dezembro 2025
Sobre seletividade disfarçada
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