31 dezembro 2025

Sobre afastamento

    Alguns encontros casuais funcionam como espelhos inesperados do tempo. Você dá de cara com alguém que já foi muito próximo, quase como da família, e a sensação é de estar conversando com um estranho que tem um passado em comum. O estranhamento não vem só da distância que se criou, mas da percepção silenciosa de que as vidas seguiram rumos bem diferentes. Enquanto um continua girando no mesmo lugar, o outro passou por tantas mudanças que não se encaixam mais naquela antiga dinâmica. Às vezes, esses afastamentos não acontecem por brigas diretas ou mal-entendidos, mas por um deslocamento interno que é impossível de ignorar. Quando duas pessoas começam a viver em velocidades diferentes, surge um desconforto que não é falado em voz alta. A diferença não está só nas conquistas visíveis, mas na maneira como cada um lida com a própria vida. Tem quem fique incomodado não porque o outro avançou, mas porque esse avanço expõe a escolha de permanecer parado.
    Muitas vezes, a relação se baseava menos em afinidade genuína e mais em um tipo de utilidade implícita. Enquanto havia uma troca conveniente, validação mútua ou o mesmo nível emocional, o vínculo parecia firme. Mas, quando um começa a olhar para além daquele horizonte conhecido, a relação vai perdendo sentido. E quando a utilidade se dissolve, o afastamento acaba se tornando uma solução silenciosa. Além disso, existe um tipo específico de desconforto que não leva à mudança, mas faz com que as pessoas permaneçam em sua zona de conforto. Não é algo inspirador, mas uma ameaça. O progresso do outro passa a ser visto como um ataque, não como uma possibilidade. Nesse cenário, qualquer iniciativa é sabotada, todo plano desestimulado, e qualquer tentativa de avanço é recebida com histórias de fracassos alheios. Não por preocupação, mas por medo de que alguém consiga sair do lugar onde a outra pessoa decidiu permanecer.
    Com o tempo, fica evidente que essas relações se sustentam em um ambiente emocional estagnado, onde ninguém pode crescer demais para não desestabilizar o grupo. Quando alguém quebra esse acordo implícito, a resposta não é apoio, mas afastamento. E esse afastamento, que a princípio pode parecer uma perda, traz um alívio que só é compreendido depois.
    Reconhecer que nem todo afastamento é uma rejeição é um sinal de maturidade silenciosa. Alguns são verdadeiros livramentos. Tem que se afaste porque não consegue mais acompanhar, apoiar ou tolerar o movimento do outro, e isso deixa um espaço que, embora vazio no começo, se torna fértil com o tempo. A ausência expõe o quanto aquele vínculo drenava mais do que alimentava.
    A gratidão que surge desse entendimento não é romântica nem indulgente, é clara. Ver que certos laços se desfazem porque já não fazem sentido é aceitar que o crescimento nem sempre é um processo coletivo. E entender que seguir em frente, mesmo sozinho por um tempo, costuma ser menos oneroso do que permanecer rodeado por aqueles que precisam que tudo fique exatamente como está.

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