Alguns encontros casuais funcionam como espelhos inesperados do tempo. Você dá de cara com alguém que já foi muito próximo, quase como da família, e a sensação é de estar conversando com um estranho que tem um passado em comum. O estranhamento não vem só da distância que se criou, mas da percepção silenciosa de que as vidas seguiram rumos bem diferentes. Enquanto um continua girando no mesmo lugar, o outro passou por tantas mudanças que não se encaixam mais naquela antiga dinâmica. Às vezes, esses afastamentos não acontecem por brigas diretas ou mal-entendidos, mas por um deslocamento interno que é impossível de ignorar. Quando duas pessoas começam a viver em velocidades diferentes, surge um desconforto que não é falado em voz alta. A diferença não está só nas conquistas visíveis, mas na maneira como cada um lida com a própria vida. Tem quem fique incomodado não porque o outro avançou, mas porque esse avanço expõe a escolha de permanecer parado.
Muitas vezes, a relação se baseava menos em afinidade genuína e mais em um tipo de utilidade implícita. Enquanto havia uma troca conveniente, validação mútua ou o mesmo nível emocional, o vínculo parecia firme. Mas, quando um começa a olhar para além daquele horizonte conhecido, a relação vai perdendo sentido. E quando a utilidade se dissolve, o afastamento acaba se tornando uma solução silenciosa. Além disso, existe um tipo específico de desconforto que não leva à mudança, mas faz com que as pessoas permaneçam em sua zona de conforto. Não é algo inspirador, mas uma ameaça. O progresso do outro passa a ser visto como um ataque, não como uma possibilidade. Nesse cenário, qualquer iniciativa é sabotada, todo plano desestimulado, e qualquer tentativa de avanço é recebida com histórias de fracassos alheios. Não por preocupação, mas por medo de que alguém consiga sair do lugar onde a outra pessoa decidiu permanecer.
Com o tempo, fica evidente que essas relações se sustentam em um ambiente emocional estagnado, onde ninguém pode crescer demais para não desestabilizar o grupo. Quando alguém quebra esse acordo implícito, a resposta não é apoio, mas afastamento. E esse afastamento, que a princípio pode parecer uma perda, traz um alívio que só é compreendido depois.
Reconhecer que nem todo afastamento é uma rejeição é um sinal de maturidade silenciosa. Alguns são verdadeiros livramentos. Tem que se afaste porque não consegue mais acompanhar, apoiar ou tolerar o movimento do outro, e isso deixa um espaço que, embora vazio no começo, se torna fértil com o tempo. A ausência expõe o quanto aquele vínculo drenava mais do que alimentava.
A gratidão que surge desse entendimento não é romântica nem indulgente, é clara. Ver que certos laços se desfazem porque já não fazem sentido é aceitar que o crescimento nem sempre é um processo coletivo. E entender que seguir em frente, mesmo sozinho por um tempo, costuma ser menos oneroso do que permanecer rodeado por aqueles que precisam que tudo fique exatamente como está.
31 dezembro 2025
Sobre afastamento
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