10 novembro 2025

Sobre ter que estar pronto para ser digno

    A gente vive num tempo em que o autodesenvolvimento virou uma mercadoria. A ideia de que a gente precisa evoluir sozinho antes de merecer amor se tornou uma espécie de dogma moderno, repetido por aí em manuais de bem-estar e perfis de autoajuda. É uma mensagem sutil, mas cruel: só quem está curado, próspero e emocionalmente estável realmente merece ser amado. Isso acaba transformando o afeto em uma espécie de mérito e os encontros em um processo de seleção. O amor, que deveria ser vulnerabilidade compartilhada, acaba virando uma recompensa para aqueles que atingem um certo nível de autocontrole.     O problema é que essa busca incessante pela versão ideal de si mesmo faz com que as pessoas se aperfeiçoem tanto que se esquecem de como é se permitir sentir.
    Essa obsessão por ter que estar “pronto” gera uma solidão sofisticada. As pessoas passam anos lapidando suas arestas, tentando consertar o que acham ser falhas, acreditando que o amor só vai aparecer quando tudo estiver perfeitamente alinhado. Elas frequentam terapias, assistem a palestras, meditam, aprendem a manifestar abundância e a criar limites saudáveis, mas, no fim das contas, esquecem como é dividir o silêncio com alguém, negociar espaço e tempo numa relação real. Tornam-se especialistas em observar a própria mente, mas inexperientes em tocar, ouvir e conviver. O resultado é que se tornam emocionalmente competentes, mas humanamente distantes.
    Há uma linha invisível entre amadurecer e se isolar. O discurso sobre amor-próprio e autossuficiência, embora importante, vem sendo distorcido em um culto ao individualismo emocional. As pessoas aprendem a se proteger tanto que já não permitem ser vistas. O medo de depender, de precisar do outro, de ser vulnerável, é disfarçado de equilíbrio. O que antes era um gesto de cuidado consigo mesmo se transforma em uma blindagem afetiva que bloqueia a troca genuína. Não se trata de romantizar a carência, mas de perceber que a gente não foi feito para ser totalmente autossuficiente. Maturidade não é não precisar de ninguém, mas sim saber escolher de quem se aproximar sem perder a própria integridade.
    O amor, na sua essência mais crua, não pede um currículo emocional, nem exige estabilidade total. Ele aparece na imperfeição e se fortalece nas falhas. É convivendo que se aprende a ser melhor; é na entrega que se descobre o que ainda precisa ser curado. A crença de que o amor só brota depois de ter se curado é uma armadilha que adia o encontro e perpetua a solidão. Amar é um processo, não um prêmio. E qualquer tentativa de se aperfeiçoar indefinidamente antes de se permitir sentir é uma forma disfarçada de medo, um adiamento camuflado de autoconhecimento.
    Talvez o verdadeiro desafio não seja aprender a amar só depois de estar pronto, mas aprender a amar durante o processo. Amar mesmo quando há dúvidas, quando as cicatrizes do passado ainda doem e as defesas ainda estão levantadas. Amar sabendo que nada vai estar completamente resolvido, que o outro também carrega suas próprias bagagens e que a harmonia se constrói na descompasso. O amor que amadurece é aquele que aceita a imperfeição sem transformá-la em desculpa, que vê beleza no inacabado e profundidade no que ainda está sendo moldado. Porque é exatamente na vulnerabilidade do inconstante que o amor se torna mais verdadeiro, mais humano e, acima de tudo, mais possível.

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